Retrospectiva de Sara Schulman sobre a comunidade
A presidente do Instituto Cultural Judaico Brasileiro Bernardo Schulman, Sara Schulman discursou fazendo uma retrospectiva histórica da comunidade, mas antes homenageou os colaboradores do Instituto. Eis seu discurso:
Prezados amigos: Entre os eventos, nos quais têm sido homenageados aqueles que nos encaminharam, nesta jornada de 120 anos de existência no Brasil, coube, à equipe do ICJBBS, constituída por Célia Galbinsky, Dora Becher, Rosi Tulchinski, Sérgio Weishof, Boris Sitnik, Szyja Lorber e Sara Schulman, propor e convidar o Centro Israelita do Paraná e a Federação Israelita do Paraná, a participarem também do nosso evento.
Foi grande a satisfação sentida por nós, do Instituto, por termos tido a idéia e a iniciativa de, através de uma grande exposição de documentos fotográficos, dos passos de nossa comunidade, em Curitiba, ao longo daquele tempo.
Coube à equipe dos responsáveis pelo Departamento Cultural do Centro Israelita, o administrador Sérgio Apter, a comunicadora Danielle Sommer e a Alexandre Distéfano, com a dedicada contribuição de arranjos de Eliza Cordova, a mãe de nosso querido Átila, bem como a ajuda de todos os funcionários, e da segurança, do CIP, organizar este evento, de tão grande significação para nós.
Realizamos esse nosso intuito, pretendendo que esta apresentação, alcance a sensibilidade e toque a alma dos descendentes, daqueles que para aqui vieram; que consigam compreender o quão bravos, e destemidos, foram nossos pais, avós, bisavós, vindos dos guetos, dos shteitls de países europeus, para se libertar da situação, do exacerbado antissemitismo, obrigados a severas restrições; dos pogroms, da destruição das sinagogas, da violência física, da perseguição medieval da Inquisição, da conversão forçada, da descaracterização dos nomes de família, do confisco de bens, dos campos de morte e extermínio de nosso povo até a última geração – situação em que viviam os nossos ancestrais, que, não desejavam mais do que, livres, um lugar para trabalhar e formar suas famílias; um lugar onde pudessem viver tranquilamente suas vidas, respeitados por sua fé, e suas tradições. E em paz.
Quando aqui aportaram os primeiros imigrantes judeus, apenas um ano antes — 1888 — fora abolida, no Brasil, a escravatura, uma fase da vida brasileira em que o homem “era dono do homem”; os escravos eram a mão-de-obra para o trabalho braçal, a serviço e bel-prazer dos que os haviam aprisionado.
No ano seguinte, 1889, quando chegaram os nossos primeiros imigrantes, as famílias Flaks e Max Rosenmann, outro importante fato na vida brasileira, também de libertação, mas do povo brasileiro, da situação vigente naquela época monarquista, aconteceu; foi um ato de coragem: a Proclamação da República, em 15 de novembro.
Na exposição especialmente montada pela equipe do Instituto Cultural, vocês poderão ver como era a Curitiba daquela época: as casas de madeira; o pó e a lama das ruas sem calçamento; a água transportada em barricas; o modesto comércio; os colonos carregando nos braços os pesados cestos de verduras, galinhas e ovos; as carroças puxadas a cavalo; os nossos clienteltchics, carregando nos braços suas mercadorias, batendo de porta em porta, sem entender ou falar, aquele idioma completamente estranho aos seus ouvidos, e tristemente saudosos, longe de suas famílias; famílias que haviam ficado além-mar, esperando juntarem-se a eles.
Pensem, por um momento na assustadora travessia durante dias em navio, dessas famílias, com as crianças, e as incertezas do desconhecido que os esperavam, uma terra quase desabitada, num exótico país chamado Brasil...
Ser bem recebidos, e de braços abertos? Para aqueles recém-chegados, aqui foi a terra do leite e do mel, o lugar onde apesar do trabalho árduo que tinham que empreender, era um começo de vida em terra estranha para aqueles jovens de então, a maior parte deles com pouco mais de 20 anos! Aqui encontraram a liberdade e a paz que buscavam; foram aceitos e compreendidos, graças à boa índole, característica do povo brasileiro. Os recém-chegados foram respeitados como pessoas com hábitos, crença e fé próprias, e compartilharam com seus hospedeiros, o conhecimento de uma riquíssima tradição milenar.
Entre os imigrantes, que haviam sido descriminados nos países da Europa, e que não tiveram a oportunidade de receber instrução superior, chegaram a Curitiba jovens intelectuais que, com o passar do tempo, tiveram importante atuação, tanto como organizadores ativos daquele pequeno núcleo judaico que aos poucos crescia, como também atuantes na vida intelectual da comunidade que aqui se formava.
Cito aqui, apenas alguns deles, como por exemplo, Burach (Bernardo) Schulman — que escolhemos como patrono do Instituto Cultural Judaico Brasileiro, chegado em aqui em 1909 — e que mantinha correspondência com vários intelectuais e jornalistas de vários países, entre eles, inclusive, o escritor Bashevis Singer, Prêmio Nobel de Literatura.
Sobre Bernardo Schulman existem fatos muito importantes, que publicaremos posteriormente, mas adianto, apenas, que, graças a seus escritos, ele nos trouxe importante benefício não só para a comunidade judaica curitibana, como também para toda a comunidade judaica brasileira, sobre fatos ocorridos naqueles tempos.
Foi na época do integralismo, dos assim chamados “camisas verdes”, as perseguições e prisões se deram, aqui, também contra alguns judeus. Burach Schulman, corajosamente, escreveu em português, um pequeno livro, chamado “Em Legítima Defesa - a voz de um judeu brasileiro” - cujo texto, é um depoimento para o público em geral e as autoridades daquela época, sobre a vinda, o trabalho, a situação e as intenções pacíficas, dos judeus no Brasil. O opúsculo teve 4 edições, sendo publicado, primeiramente, em Curitiba; depois em S. Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Obteve grande repercussão, principalmente, entre os intelectuais e as autoridades brasileiras, trazendo esclarecimentos a todos, e com eles, benefícios para os judeus. Foi por isso que homenageamos Bernardo Schulman, dando seu nome ao Instituto Cultural Judaico Brasileiro, no Paraná, fundado em 1988.
Outro importante jovem intelectual judeu foi Julio Stolzemberg, que, além de ativista comunitário, trouxe da Europa para Curitiba, a ideia de um movimento voltado para a formação de um Estado judeu. Também ele será mencionado em nossos escritos.
Outros, chegados antes ou logo após o início da Primeira Grande Guerra, em 1914, como os Teig, os Raiz, os Weniger; os Schaia, os Flomembaum, os Blinder, os Achterman, os Bariach, os Knopfholz, os Paciornik, os Schulman, os Rosenmann; os Chamecki, os Guelmann, os Aisenberg, os Rotenberg, os Mazer, os Jugend... E muitos, muitos mais, que se tornaram ativistas na comunidade que se formava então, mas que, ao mesmo tempo, traziam consigo aquela característica típica judaica, a chama de uma visão política para as circunstâncias dos acontecimentos no mundo; alguns voltados para a fundação de um Estado judeu; e outros, de outras linhas políticas, companheiros e amigos entre si, mas com opiniões diversas, cujas decisões eram conjuntamente tomadas, ao se reunirem; debatendo e resolvendo todos os problemas do mundo, e nas quais ocorriam acirradas discussões; ocasiões em que batiam nas mesas para impor sua opinião e, inúmeras vezes, até cadeiras voavam... Terminada a assembléia, saíam dela abraçados, amigos e companheiros que eram, com um mesmo passado, e olhando para o mesmo futuro.
Daqueles que aqui aportaram, a maior parte tinha estudado somente nos cheders - que eram as escolas dos guetos, pois, nem sempre lhes era permitido frequentar as escolas fora dos guetos. Com o passar do tempo, tudo fizeram para que seus filhos tivessem aqui, a oportunidade que eles não tiveram: Isto é, estudar e tornarem-se doutores. Assim, com sacrifício, a maioria deles, pobres que eram, com muito trabalho, e também muita esperança, conseguiram, ao longo dos anos, encaminhar seus filhos para as universidades brasileiras, realizando, enfim, seus próprios sonhos.
Com as oportunidades aqui encontradas, aquela segunda geração, com bastante liberdade para atuar como qualquer outro cidadão deste país proporcionou àqueles pais, naches — a satisfação de ver seus filhos se sobressaírem nas diversas áreas do conhecimento, utilizando seu latente potencial intelectual e cultural, até então não aproveitado.
Tiveram naches em ver seus filhos e netos respeitados pela comunidade brasileira, pela participação deles, com grande competência, nos variados campos: político, intelectual, científico e artístico da vida brasileira. São médicos, engenheiros, advogados, dentistas, farmacêuticos, pesquisadores, empresários; professores, empreendedores no comércio e na indústria que atuaram e atuam seus descendentes, admiravelmente, em todas as áreas da intelectualidade, participando com brilhantismo do desenvolvimento do Brasil e do Paraná, o País e o Estado que nossos ancestrais escolheram para viver e criar seus descendentes, nós!
Destes brilhantes intelectuais, descendentes de nossos pais e avós que para cá imigraram, nos sentimos orgulhosos, porque eles souberam também, além da atuação no cenário nacional, manter os sentimentos de respeito e amor às tradições e aos princípios do judaísmo!
Eles nos dão orgulho, ainda, porque, mesmo sem alardear, mantêm o sentido da responsabilidade, fazendo parte de uma comunidade e se preocupando com os caminhos pelos quais mantêm sua continuidade como judeus e como brasileiros. Eles
nos dão orgulho, porque nós bem sabemos que eles se mantêm atentos, pensando no nosso futuro.
E agora, eu pergunto-lhes, senhores e senhoras: Onde estudaram? Onde se prepararam? Que lugares frequentaram aqueles referidos a pouco, que tão brilhantemente têm se distinguido em todas as áreas do conhecimento e da cultura brasileira, e que nos trazem tanto orgulho?
Eu mesma lhes respondo: Todos, ou quase todos daquelas gerações de filhos, netos, e bisnetos — todos, ou quase todos — estudaram na Escola Israelita Brasileira.
É a partir desta Escola, doada generosamente, pelo visionário Salomão Guelmann, é que se formaram todas aquelas brilhantes gerações, das quais tanto nos orgulhamos; é de lá, da Escola Israelita Brasileira, que vieram também os jovens — moças e rapazes — que trabalham e se preocupam com o nosso bem-estar; moças e rapazes de hoje, meninos ainda, do Dror, que informam, ensinam, com rara responsabilidade, conhecimento e dedicação, e que, de uma forma magnífica, se preocupam e mantém unidos os mais jovens que eles, que também vieram da Escola Israelita; assim como vieram da Escola Israelita, aqueles jovens que escreveram a história da comunidade curitibana, trabalhando com todas as dificuldades possíveis ao longo de 54 anos; são os grupos que mantiveram a nossa memória através da revista “O Macabeu”. E também é de lá, da Escola Israelita Brasileira, que têm vindo os que garantem a tranquilidade e segurança.
E o nosso Grupo do Folclore? E as nossa instituições beneficentes? Moços, moças, senhores, senhoras, da nossa comunidade – onde estudaram? Na Escola Israelita Brasileira de Curitiba.
Eu agora ainda lhes pergunto: O que mais podemos querer? Onde mais, e com quem mais, poderemos encontrar o sentido da humanidade, comunidade, responsabilidade, e tradição que são os baluartes mantidos por nós, frutos da tradição judaica, ao longo desses quase seis mil anos, senão em nossa Escola Judaica Brasileira?
Como pais e judeus responsáveis, é nossa obrigação, proporcionar aos nossos descendentes, sempre, o conhecimento e o respeito às nossas tradições; isto, através do estudo e da leitura, mantendo na nossa lembrança, a sabedoria e a memória de nossa história, a história do povo judeu ao longo desses quase seis mil anos.
Portanto, eu os aconselho, senhores e senhoras: Mantenham-se unidos; mantenham-se informados do que acontece hoje no mundo ao nosso redor, mantenham-se atentos e, ao mesmo tempo, continuemos todos, pais, filhos e netos, com o mesmo empenho, responsáveis também pelo bem-estar do povo brasileiro, e pelo engrandecimento desse País, contribuindo, de forma exemplar, como temos feito até agora, para o desenvolvimento desta terra abençoada, o Estado do Paraná, no Brasil, que tão bem nos soube compreender e aceitar. Obrigada.
