“Assim nasceu Israel” revela bastidores da ONU na partilha

O livro “Assim nasceu Israel”, que conta toda a história da partilha da Palestina pelas Nações Unidas já tem edição em português para quem não teve ainda a oportunidade de lê-lo. Até então só havia edições [raras] em espanhol, inglês e em hebraico, que eram difíceis de encontrar. Traduzido por Sara Schulman e Szyja Lorber, do Instituto Cultural Judaico Brasileiro “Bernardo Schulman”, a partir do original em espanhol, a obra escrita pelo jornalista, advogado e diplomata guatemalteco Jorge García Granados, representa um documento importantíssimo para a compreensão do panorama mundial da época e, em especial, do Oriente Médio.
Indicado para integrar a UNSCOP, a Comissão Especial das Nações Unidas para a Palestina, Granados, que não era judeu, foi ao Oriente Médio junto com alguns membros da comissão, ali permanecendo por alguns meses, e com a imparcialidade que o caracterizou por toda a vida. Visitou kibutzim, constatou que os judeus transformavam desertos em áreas cultiváveis, em meio a condições extremas do clima, sofrendo o desdém dos britânicos que detinham o Mandato, e sangrentos ataques de incitadas turbas árabes.
Ele também foi à Europa e percorreu, entre sensibilizado e indignado, os campos onde viviam em estado de completa miséria judeus refugiados e deslocados, que não podiam imigrar para a Palestina, pois eram impedidos pelos britânicos, nem voltar a seus países de origem, onde, ou já imperava o comunismo, ou o anti-semitismo voltava a exibir suas garras. Humanista lúcido, logo se convenceu da necessidade e da justiça da partilha da Palestina, tornando-se ele um dos grandes e mais fortes arautos da criação de Israel na ONU.
Com mais de 300 páginas, a edição em português é a única ilustrada com muitas fotografias históricas e contém notas explicativas não existentes no original, escrito em 1949.    
“Na realidade”, observam os tradutores que são de Curitiba, “o livro é o primeiro relatório detalhado, feito por uma testemunha que viveu o que a Comissão Especial das Nações Unidas para Palestina encontrou na Terra Santa, as dificuldades vividas na condução dos trabalhos, em meio à má-vontade dos britânicos, o boicote dos árabes e, surpreendentemente, para muita gente, que sempre imaginou o inverso, a política norte-americana, naquela época, total e ostensivamente contrária à partilha e á criação do Estado judeu, e de como se decidiu e votou em favor da divisão territorial, e, finalmente, como nasceu Israel.
Além disso, o relato é também primeira revelação franca do que ocorreu por trás dos até então augustos portais das Nações Unidas em todo o processo. Conta como funcionava a Assembléia Geral; como, por meio de acordos, se elegiam as comissões especiais; como algumas personalidades dirigem e modelam a política de uma nação; como as grandes potências pressionaram e contra pressionaram os seus satélites, as chantagens políticas e financeiras antes da proclamação da independência de Israel, em 15 de maio de 1948.
O guatemalteco Jorge García Granados prossegue a história da Palestina do ponto em que a deixou Bartley Crum em seu livro “Behind the Silken Curtain a Personal Account of Anglo-American Diplomacy in Palestine and the Middle East”. Ele também se reuniu em segredo com representantes do movimento subterrâneo judeu, como Menachem Begin (então procurado número 1 dos ingleses), com membros da Haganá. e com as diversas facções árabes. Conversou com prisioneiros políticos, com motoristas, com operários, com colonos, assim como com funcionários de todo o tipo.
Ao retornar a Lake Success, então sede da ONU, tinha convicções do dever de lutar pela decisão transcendental, a gênese de Israel. Tornara-se, talvez sem perceber no primeiro sionista cristão da América Latina, e dedicou-se com afinco e paixão a esse objetivo, o mesmo sonhado pelos judeus há dois mil anos.   
Granados foi uma personalidade ímpar. Filho de uma tradicional família de políticos, de boa posição social e econômica, quando jovem estudante lutou contra a ditadura e a liberdade em seu país. Preso e forçado ao exílio no México (em troca da comutação da pena de morte que o ditador lhe decretara, depois que sua mãe interpelara publicamente o caudilho), tornou-se um ser humano especial, compassivo, sentimental, não sem uma ponta de um tipo de humor que o caracterizou ao longo da vida. Foi o primeiro embaixador da Guatemala em Israel, tendo instalado a então representação diplomática em Jerusalém (anos depois, pressionado pelos árabes, por causa do petróleo, o governo da Guatemala, como tantos outros países, mudou a embaixada para Tel Aviv). O segundo embaixador em Israel foi seu filho, que se casou numa israelense. Faleceu em Santiago, em 1960, aos 60 anos de idade, quando exercia a função de embaixador do país no Chile.
Numa nota biográfica em que ele próprio fez profissão de fé, explica melhor quem foi:
“Fui sempre um rebelde. Não rendo homenagens a nenhum poder. Não sou maçom. Nem comunista. Nem rotariano. Não pertenço a nenhum partido político, nem a sindicatos, câmaras de comércio, organizações beneficentes ou sociedades literárias. Uma vez fui acadêmico, mas renunciei.
Não odeio ninguém e amo muitos. Não sou anti-social. Tenho ideais. Estou disposto a prestar minha ajuda a qualquer sociedade, a qualquer grupo, a qualquer indivíduo, ou qualquer um, se sua causa me parecer justa.
Respeito o pensamento e detesto a violência e a tirania. Não tenho complexos e adoro a vida: livros, teatro, quadros, música, flores, paisagens, vinhos, a animada multidão das cidades, e o trato íntimo dos meus familiares e de alguns poucos amigos afins.
Estive no cárcere e no desterro, e padeci por coisas nas quais creio. Eu queria que o meu país fosse livre, e lutei para que tivesse um governo decente, respeitoso do ser humano.
Lutei por outros países e por outras pessoas porque creio que a estirpe humana tem direito à felicidade e que todos os homens têm o dever de ajudar os seus próximos.
No me inclino diante das hierarquias, e com igual franqueza falo aos poderosos e aos humildes. Dentro da relatividade da condição humana, sinto-me feliz.
Foi muito duro para mim, solitário e débil, chegar onde estou agora. Mas fui recompensado. Sou um homem livre!”

 

Trecho

Perguntei-me, sem dar muita importância, que assunto pessoal teria detido esse homem reservado e dono de si próprio em Tel Aviv, e não pensei mais nisso. Dirigimo-nos velozmente para Tel Aviv, mas, ao chegar aos subúrbios da cidade, nossa procissão parou. Ao lado do caminho, esperava um automóvel, que não era da ONU. Abriu-se a porta e saíram o juiz Sandstrom, o doutor Hoo e o doutor Bunche. Saudaram-nos, amavelmente, e sem dizer uma palavra entraram em seus automóveis, depois do que seguimos nosso caminho.
Naquela noite, o mistério se fez mais profundo. Na rua apareceu um jornal hebreu, com uma edição extra, cuja surpreendente manchete era anunciada, em voz alta, pelos vendedores de jornais. Segundo as notícias, Sandstrom e os Drs. Hoo e Bunche haviam participado, na noite anterior, de uma reunião secreta em que se encontraram com Menachem Begin, chefe da organização terrorista Irgun Zvai Leumi.